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"Adoro caminhar em silêncio pelas sombras. Sou um bicho da noite, do crepúsculo, uma caçadora noturna. O barulho me fere a alma; busco a quietude, o contato comigo mesma e com a natureza."
Léa Waider
A desocupada: Aline Primaveras: DezesseisMora: Onde Judas perdeu as botas Está ouvindo: Vinícius de MoraesEstá lendo: "A insustentável leveza do ser", de Milan KunderaEstá escrevendo: Aqui e num caderninho de veludo azul Futura (possível) profissão: Jornalismo
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Desabafo
Por muitos anos venho sofrendo com isso. É uma coisa que sempre me atrapalhou, mas sabe como é, a gente finge que não existe, a gente pensa que ninguém percebe, a gente nega, a gente acha que dá pra conviver com isso... Mas chega um momento que é impossível continuar assim. Não dá, não dá!
Antes isso só afetava pequenas partes da minha vida, mas essa semana, pela primeira vez, perdi dinheiro por causa disso.
Eu...
Eu tenho memória fraca.
Sim, eu tenho vergonha de admitir, mas é verdade. Eu esqueço chaves, documentos (lembrete pessoal: procurar RG), bolsas, aparelhos dentais. Perdi as contas de quantos guarda-chuvas perdi no pré-primário. Numa noite célebre, esqueci o convite para um baile de Halloween. Duas vezes.
Mas no final das contas eu sempre achava (com excessão dos guarda-chuvas, esses devem ter tido um fim cruel). Até essa última segunda-feira.
Estou em São Paulo. Estou visitando meu pai. Estou doida pra ver um filme. Qualquer filme.
Eram 18h quando comprei um ingresso para a sessão das 19h para Matrix Revolution. Como vocês podem perceber, comprei com uma hora de antecedência. Guardem esse fato. Uma hora.
Como ainda faltava todo esse tempo pra começar o filme, resolvi descer até a Livraria Nobel e ficar babando nos livros e nos cds que nunca vou ter dinheiro pra comprar.
As pessoas que me vêem em bibliotecas e livrarias devem pensar alguma coisa relacionada à minha saúde mental. Eu fico tão maravilhada com a quantidade de livros que posso ficar horas perdida. Veja bem, eu não estou exagerando quando digo horas.
Estava muito divertido lá na Nobel. Depois de descobrir que nunca em um milhão de anos vou poder comprar o CD do The Doors, um vendedor legal colocou pra eu ouvir. Só eu e um cara duns 57 anos cantávamos "come on, baby, light my fire".
Enquanto isso, eu folheava vários desses livros legais. Alguns nem eram tão legais, mas tinham aquele tipo de folha que atrai e você quer continuar lendo (pra quem não sabe, eu não sei o nome do papel, mas é tipo o da última edição de "A insustentável leveza do ser" ou "Budapeste").
Quando, depois de um longo tempo passeando e decorando cada centímetro quadrado da livraria, eu penso "acho que já deu a hora". Vale a pena mencionar que eu já tinha olhado várias vezes no relógio em momentos anteriores, uma dessas olhadinhas rápidas, e sempre pensando que ainda tinha tempo.
Bom. Tinha tempo. Pra sessão das 21:30h, tinha muito tempo. Eram 19:45h. Sete-e-quarenta-e-cinco! Ainda corri até a sala, na esperança de um super atraso devido à greve dos gnominhos do cinema, ou das moças que fazem as pipocas. Mas não.
Conclusão: perdi 6 reais e o final de Matrix.
Sim. Eu tenho amnésia para fatos recentes.
E Deus tenha piedade de almas sofridas como a minha.
Inutilidade da mente:
posted by ALINE MACBETH @
23:18
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21.11.03  |
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